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O Conflito: Governador Mateus Simões e Prefeito Marco Antônio Lage trocam acusações sobre quem desistiu do financiamento tripartite (Estado, Vale, Itabira).
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O Pedágio: Documentos da Secretaria de Infraestrutura mostram que a rodovia foi incluída em um pacote de concessão de 506 km com previsão de pedágio.
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A Espera: O cronograma prevê que a duplicação total pode levar até 14 anos para ser concluída pela futura concessionária.
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O Investimento: Estão previstos R$ 115 milhões nos primeiros 5 anos, focando em trevos e acessos industriais. Execução via Parceria Público Privada (PPP)
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A Lacuna: A ausência de deputados representantes de Itabira na Assembleia Legislativa é apontada como fator que retira o poder de barganha da cidade frente ao Estado.
A briga
Após participar da tradicional solenidade de entrega das Medalhas da Inconfidência em Ouro Preto no dia de Tiradentes a algumas semanas (21/04), o governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), foi visitar as obras da rodovia MGC-262 que liga Barão de Cocais a Caeté.
Na ocasião, ele foi perguntado em conversa com a imprensa, sobre a situação do projeto das obras de duplicação da rodovia que liga Itabira ao trevo da BR-381, em Bom Jesus do Amparo. De acordo com o mandatário estadual, existiam conversas adiantadas entre o governo do estado através da Secretaria de Infraestrutura, a mineradora Vale e a Prefeitura de Itabira em que cada ator interessado arcaria com um terço da obra.
“A gente tinha conversas bem avançadas com a Vale, mas a prefeitura resolveu mudar a forma de tratamento do tema e aí as conversas ficaram suspensas. Eu espero sensibilizar o prefeito da importância da gente construir essas soluções em conjunto. Entrar em conflito na hora que a gente quer construir infraestrutura, é pedir para as obras não acontecerem”, afirmou Simões.

No dia seguinte, após vídeos com as declarações do governador circularem amplamente pela redes sociais, o prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), disse que o ex-governador Romeu Zema (Novo) em 2023, não deu andamento ao projeto se retirando e propondo um novo modelo de financiamento mais amplo que incluiria outras estradas estaduais.
“Não é verdade, nós não mudamos nada. Quem mudou foi o Governo do Estado, que resolveu ampliar o espectro e ampliar para mais rodovias. Queriam um projeto maior e não só a 434-129 para ligar Itabira, que é uma obra fundamental para o nosso futuro, para o futuro da cidade e de toda a região, porque nos aproxima da região metropolitana de Belo Horizonte”, respondeu Marco Antônio Lage.
Todos os ontens se iluminaram
De acordo com documentos obtidos pelo portal Super Cidades, a duplicação da MG-129/434 integra o pacote de várias rodovias na região denominada como Quadrilátero Ferrífero, começando na região de Mariana, e se estendendo na malha rodoviária estadual até o Município de Carmésia, totalizando 506,3 km. Veja:

Conforme apurado, o governo estadual avalia um modelo de concessão (ou Parceria Público-Privada) que prevê cobrança de pedágio no regime Free-flow (através de pórticos com câmeras e pagamento automatizado via aplicativo ou boleto bancário) e por meio de praças de pedágio convencionais. No estudo, também está presente o levantamento da quantidade de veículos que passa pelas rodovias. Veja: 
A MG-129/434 está representada no mapa acima pelo ponto P01 em que se realizou a contagem de veículos durante 7 dias. Como pode ser percebido, neste trecho foi registrado um considerável fluxo de veículos de passeio e de caminhões.
Duplicação em 14 anos
De acordo com o cronograma de obras descrito em uma planilha, a concessionária vencedora teria 14 anos para duplicar totalmente o trecho que liga Itabira (a partir do trevo com a MGC-120 que liga Itabira a Nova Era, no Laboreaux) ao trevo da BR-381, em Bom Jesus do Amparo.

No escopo da duplicação, estão previstas diversas intervenções que vão de manutenções no pavimento existente, tratamento urbano em dois trechos na MG-129 a construção de dez obras de artes especiais que são pontes, viadutos e passarelas. A futura concessionária teria até o fim do contrato para realizar todas as melhorias previstas.

A imagem acima mostra projeções do novo trevo de acesso ao Distrito Industrial de Itabira. Ao duplicar a rodovia seria construída um viaduto inferior as faixas de rolamento principais, bem como vias de acesso marginais, evitando o cruzamento.

A projeção acima mostra que no trecho já municipalizado do Bairro Chapada/Boa Esperança a entrada para São Gonçalo deverá receber vias marginais, passarela próximo a Escola Estadual José Ricardo Martins Fonseca e obra de arte especial composta por dois viadutos, substituindo o perigoso trevo de acesso a São Gonçalo do Rio Abaixo.
Riscos analisados e indenizações à concessionária
A Secretaria de Infraestrutura especificou quais seriam os eventuais riscos de mitigação de responsabilidade do Estado e da concessionária:
Estado:
- Recuperação, prevenção, remediação e gerenciamento dos passivos ambientais fora do Sistema Rodoviário, incluindo os gerados em período anterior a concessão.
- Vícios ocultos do Sistema Rodoviário e dos bens da concessão por 5 anos.
- Identificação e/ou descoberta de condições geológicas e geotécnicas desconhecidas.
- Descobertas arqueológicas e/ou interferências com o patrimônio cultural.
Concessionária:
- Recuperação, prevenção, remediação e gerenciamento dos passivos ambientais existentes no Sistema Rodoviário, incluindo os gerados em período anterior a concessão.
- Vícios ocultos do Sistema Rodoviário não reclamados em 5 anos.
- Vícios ocultos nos bens da concessão adquiridos, arrendados ou locados pela concessionária.
O modelo de concessão prevê que eventuais indenizações à concessionária sejam asseguradas por um sistema estruturado de garantias do poder concedente, inspirado em experiências anteriores no estado, como a PPP da MG-050 que liga BH a Divinópolis. Na prática, isso quer dizer que o contrato já nasceria com mecanismos para proteger o equilíbrio econômico-financeiro, especialmente diante de riscos que fogem ao controle da empresa, como oscilações de demanda ou falhas na arrecadação do pedágio eletrônico (free flow). Caso a receita fique abaixo do esperado por fatores externos, a concessionária ativaria dispositivos contratuais de recomposição, que vão desde revisões tarifárias até o uso de garantias públicas previamente estabelecidas.
Essas garantias são organizadas em diferentes níveis e contam com um fluxo de execução definido, o que dá maior previsibilidade de cobertura dos custos adicionais. Em situações mais críticas, como inadimplência do governo de Minas ou até uma rescisão do contrato, a concessionária teria direito ao ressarcimento dos investimentos ainda não amortizados. Esse cálculo segue parâmetros da modelagem econômico-financeira do projeto, incluindo indicadores como o custo de capital, assegurando uma compensação de acordo com o volume de recursos aplicados, objetivando reduzir riscos regulatórios e aumentando a segurança jurídica para aumentar a atratividade para potenciais investidores.
Investimentos iniciais – R$ 115 milhões
Na rodovia MG-129/434, estavam previstos investimentos iniciais de aproximadamente 115 milhões de reais nos primeiros 5 anos de concessão de acordo com o cronograma orçamentário realizado em 2024, como pode ser visto nas imagens abaixo.

A maior parte dos investimentos, estavam previstos nas obras de ampliações dos trevos do Distrito Industrial, Itabiruçu e Chapada, veja:

A partir do Bairro Chapada, estão previstos quase 46 milhões de reais em investimentos na MG-434. Acompanhe a planilha a seguir:

Governo do Estado alega falta de recursos para realizar as obras
O Governo de Minas Gerais tem argumentado que a atual restrição orçamentária do Estado — marcada por elevado comprometimento das receitas com despesas obrigatórias, como folha de pagamento, previdência e serviço da dívida — limita de forma significativa a capacidade de investimento direto em infraestrutura. Na avaliação da administração estadual, a rigidez fiscal imposta pela Lei de Responsabilidade Fiscal, somada ao histórico de desequilíbrios nas contas públicas e à necessidade de ajuste contínuo, reduz o espaço para novos aportes em obras rodoviárias com recursos próprios. Nesse cenário, mesmo anúncios pontuais de investimentos dependem de forte planejamento e disponibilidade limitada de caixa .
Diante dessas restrições, o governo tem defendido o modelo de Parcerias Público-Privadas (PPPs) como principal alternativa para destravar projetos e enfrentar gargalos logísticos no estado. A estratégia passa pela transferência de parte dos investimentos à iniciativa privada, sob regulação de estruturas como a Agência Reguladora de Transportes de Minas Gerais, criada justamente para fiscalizar contratos desse tipo. Segundo essa linha de atuação, as PPPs permitem antecipar obras consideradas estratégicas, diluir riscos e viabilizar intervenções que dificilmente sairiam do papel apenas com recursos públicos, reforçando o papel das concessões como eixo central da política de infraestrutura rodoviária em Minas.
Opinião
Após guerra de narrativas, uma coisa precisa ficar muito clara: a falta de representatividade coloca Itabira à mercê de decisões que não são compatíveis com o interesse local e regional. Após a saída de Bernardo Mucida da Assembleia Legislativa, Itabira e região perdeu lugar de fala e poder de barganha em eventuais favorecimentos no cenário estadual.

Como pode ser notado, a Secretaria de Estado de Infraestrutura de Minas Gerais pode ter optado não duplicar a rodovia que liga Itabira ao trevo da BR-381 pelo regime de obras públicas depois de observar um bom volume de veículos neste trecho, demonstrando eventual rentabilidade. Entretanto, deve-se levar em consideração que a futura total duplicação da BR-381, muitos veículos, sobretudo os de cargas, deverão deixar de passar por Itabira em direção ao Vale Aço, distorcendo, em grande monta, o volume de tráfego apresentado a investidores.
Após profunda análise em vasta quantidade de planilhas, croquis, plantas e diversos relatórios por questões de dias e madrugadas, não se observou qualquer possibilidade de destaque da rodovia MG-129/434 do Lote 11 por outra forma de financiamento das obras, tampouco não foi encontrada também qualquer previsão da duplicação desta rodovia com recursos compartilhados entre Vale e Prefeitura Municipal de Itabira.
Apesar da absoluta falta de prioridade pela esfera estadual em realizar esse projeto de suma importância para Itabira e região, carece também ao prefeito Marco Antônio Lage dedicação em encontrar outros meios para comover o governador a retomar as discussões e resolver este impasse. Parceiros em comum precisam ser acionados para pacificar os ânimos e colocar os interesses dos mineiros de Itabira e do Médio Piracicaba acima de qualquer divergência política e ideológica que injustifica, ainda mais, todo esse jogo de intransigência e falta de fino trato com questões que vão muito além de espantalhos de todo tipo.
Os cidadãos de Itabira não podem ser bolas de sinuca de disputas estaduais e federais. Pela MG-129/434 passam inúmeros veículos, acidentes fatais acontecem de tempo em tempo, matando trabalhadores, turistas, estudantes e pacientes que vem a Itabira ou vão a capital para tratamentos. Investimentos empresariais não chegam em Itabira por imprevisibilidade no tempo de deslocamento de suprimentos e escoamento de produtos. Moradores do Chapada vem sofrendo com falta de drenagem pluvial e falta de passarelas.

Enfim, a solução precisa ser encontrada e os atores podem seguir de costas em pautas menos importantes desde que a estrada seja revitalizada e a população seja atendida.


