09 maio 2026

Crea-MG está otimista pela construção do contorno Itabira-Vespasiano após renovação de concessão ferroviária

Obra deverá ligar Médio Piracicaba a região centro-oeste e ao complexo portuário do Espírito Santo.

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A renovação antecipada da concessão da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), operada pela VLI Logística, pode abrir caminho para um dos projetos ferroviários mais debatidos dos últimos anos em Minas Gerais: o Contorno Ferroviário Itabira–Vespasiano. A proposta foi aprovada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em abril deste ano e aguarda análise final do Tribunal de Contas da União (TCU) antes da assinatura do novo contrato. A atual concessão da FCA vence em agosto.

O tema ganhou força nos últimos meses após uma série de reportagens publicadas pelo portal Super Cidades, um dos primeiros veículos a tratar o contorno ferroviário como alternativa estratégica para reorganizar a logística mineira. Em outubro do ano passado, o site publicou a matéria “Contorno Itabira–Vespasiano: a ideia capixaba que pode transformar a logística mineira”, antecipando discussões que posteriormente passaram a integrar o debate da renovação da concessão da FCA. Mais recentemente, o portal voltou ao tema ao alertar para o risco de o projeto perder força por falta de articulação política regional.

O processo de renovação da FCA prevê uma ampla reconfiguração da malha ferroviária administrada pela concessionária, que conecta regiões do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste e atravessa sete estados brasileiros. Pela proposta aprovada pela ANTT, cerca de 3,1 mil quilômetros de linhas serão devolvidos à União, enquanto aproximadamente 4,1 mil quilômetros permanecerão sob operação da concessionária. O rearranjo abre espaço para novos investimentos ferroviários e recoloca em discussão obras consideradas estratégicas para Minas Gerais.

Com cerca de 90 quilômetros de extensão estimada, o novo traçado entre Itabira, Santa Luzia e Vespasiano surge como alternativa ao antigo projeto da Serra do Tigre, que previa uma ferrovia significativamente maior e de custo elevado. Segundo estimativas mencionadas durante as discussões entre Minas Gerais e Espírito Santo, o novo corredor ferroviário poderia custar cerca de R$ 2 bilhões, valor muito inferior aos mais de R$ 20 bilhões estimados para o traçado originalmente defendido na Serra do Tigre.

A proposta é considerada estratégica para reorganizar o fluxo ferroviário da Região Metropolitana de Belo Horizonte, reduzir a circulação de cargas pesadas em áreas urbanas e criar uma nova conexão logística entre o Médio Piracicaba, a capital mineira e os portos do Espírito Santo. Especialistas do setor avaliam que o projeto também pode aliviar gargalos históricos da BR-381, rodovia que concentra grande parte do transporte de cargas entre Belo Horizonte, Vale do Aço e litoral capixaba.

O vice-presidente no exercício da Presidência do Crea-MG, engenheiro civil Diego Oliveira Rosa, avalia que o empreendimento possui impacto estrutural para o desenvolvimento do estado. “Estamos diante de uma oportunidade estratégica para Minas Gerais. O contorno ferroviário pode melhorar a logística, reduzir impactos nas áreas urbanas e impulsionar o desenvolvimento regional. A engenharia tem papel essencial para garantir soluções viáveis e sustentáveis para o futuro do estado”, afirmou.

Na avaliação de representantes técnicos da região do Médio Piracicaba, o projeto também pode gerar efeitos econômicos indiretos relevantes. O inspetor do Crea-MG em Bom Jesus do Amparo, engenheiro civil Magno Drumond, destaca que a nova ligação ferroviária tende a reduzir custos logísticos para setores como mineração, siderurgia e agronegócio, além de fortalecer projetos estruturantes, como a implantação de um porto seco em Itabira. “A ferrovia amplia a capacidade logística, atrai investimentos e integra o Médio Piracicaba a corredores estratégicos que ligam Minas ao Centro-Oeste e aos portos do Espírito Santo”, afirmou.

Apesar do avanço institucional, o contorno ferroviário ainda não integra formalmente o conjunto obrigatório de investimentos previstos na renovação da concessão. O projeto foi incluído pela ANTT como investimento adicional, condicionado à realização de estudos complementares de viabilidade técnica e econômica, além da definição de prioridades dentro do novo contrato. Nesse cenário, lideranças regionais, entidades técnicas e representantes do setor produtivo intensificam a articulação para evitar que o projeto permaneça apenas no campo das intenções.

Direito de passagem pela EFVM já garante alternativa operacional à FCA

Embora o Contorno Ferroviário Itabira–Vespasiano seja tratado como uma solução estratégica de médio e longo prazo para reorganizar a logística ferroviária mineira, a VLI já possui atualmente uma alternativa operacional entre a região de Nova Era e Belo Horizonte por meio da Estrada de Ferro Vitória à Minas (EFVM), controlada pela Vale. A companhia detém direito de passagem no trecho e utiliza a estrutura para operações de carga geral, o que garante uma rota complementar à malha da FCA em parte do corredor logístico mineiro. Especialistas do setor avaliam, contudo, que o contorno ferroviário ampliaria significativamente a capacidade operacional da região, além de criar uma solução mais estruturada para segregação do tráfego cargueiro pesado, redução de conflitos urbanos e expansão futura da malha logística integrada entre o Médio Piracicaba, a Região Metropolitana de Belo Horizonte e os portos do Espírito Santo.

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