28 março 2026

André Viana anuncia ampliação de vida útil das minas da Vale em Itabira até 2053

Prolongamento do prazo de exaustão se deu em virtude da ampliação da cava da Mina Conceição do Meio e reaproveitamento de rejeitos.

Share

O presidente do Sindicato Metabase de Itabira e Região, André Viana Madeira, informou nesta sexta-feira (27) a ampliação do horizonte de exaustão das minas de Itabira em 12 anos. “Antes o fim da mineração em Itabira estava previsto para 2041, o prazo agora se estende até 2053.”.

A informação consta do Relatório Form-20, documento anual registrado junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), em Nova Iorque, referente ao ano fiscal de 2025, recentemente publicado pela mineradora Vale.

O relatório, encaminhado anualmente aos acionistas com investimentos na Bolsa de Nova Iorque, apresenta dados sobre reservas minerais no Brasil e no exterior, além de informações relacionadas ao desempenho operacional, metas, impactos sociais e ambientais e compromissos corporativos.

“É uma vitória para Itabira e para os trabalhadores, que agora têm mais tempo para planejar o futuro”, afirmou André Viana, que também representa os trabalhadores no Conselho de Administração da mineradora.

O histórico da exaustão mineral

Desde o primeiro Relatório Form-20 registrado pela Vale junto à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), a previsão de esgotamento das minas de Itabira vem sendo sucessivamente revista: inicialmente para 2014, posteriormente para 2025, 2028, 2041 e, agora, para 2053.

“A cada relatório, o relógio da mineração se move, e a cidade revive a tensão entre o alívio momentâneo e o temor do fim inevitável. Mas esse fim pode, e deve, ser planejado desde já, com investimentos estruturais e diversificação da economia local”, defende André Viana, que também representa os trabalhadores no Conselho de Administração da mineradora.

Para o dirigente sindical, o planejamento é fundamental para evitar impactos socioeconômicos decorrentes da exaustão mineral. “Isso se não cruzar os braços e deixar a vida seguir devagar”, salientou, citando Carlos Drummond de Andrade.

O alerta sobre a dependência econômica da mineração já havia sido abordado pelo poeta, ainda antes da instalação da Vale em 1942, ao destacar os riscos de ausência de diversificação econômica.

Avanços tecnológicos e ampliação das reservas

De acordo com André Viana, a ampliação do horizonte de exaustão está associada a avanços tecnológicos e a estudos geológicos que possibilitam o aproveitamento de minérios de menor teor, como o itabirito dolomítico, viabilizado por meio de novos processos, a exemplo do que ocorreu anteriormente com o itabirito compacto.

Esse tipo de minério, anteriormente considerado estéril devido aos elevados teores de cálcio e magnésio, passa a ser economicamente aproveitável ao ser processado em mistura com itabiritos de maior teor, ampliando as reservas disponíveis.

Outro fator relevante é a adoção de práticas de mineração circular, que envolvem o reaproveitamento de materiais depositados em barragens desde a década de 1970 e a redução da geração de rejeitos. Em 2025, essa prática já contribuiu com cerca de 1,5 milhão de toneladas de minério de ferro, havendo novos projetos em fase de licenciamento.

Impactos econômicos e desafios operacionais

Com base nos novos estudos, as reservas minerais do complexo de Itabira passaram de 760 milhões de toneladas (base 2024) para 1,151 bilhão de toneladas (base 2025), o que representa um acréscimo de 391 milhões de toneladas, equivalente a um crescimento de 52%.

“A notícia é boa para os trabalhadores, para os prestadores de serviços e para os investidores, que veem segurança no prolongamento da atividade minerária em Itabira. Para a gestão pública municipal e para a economia regional, o anúncio representa fôlego adicional, mas também reforça a necessidade de planejamento”, adverte o sindicalista.

Segundo André Viana, a viabilização desse novo horizonte de exaustão demandará a ampliação das cavas das minas Conceição e do Meio, bem como a implantação de novas estruturas de disposição a seco de rejeitos e estéril, ainda sujeitas a licenciamento ambiental.

Outro ponto destacado é a necessidade de intensificação do reaproveitamento de rejeitos acumulados em barragens, prática já incorporada pela empresa no contexto da mineração circular, mas que também depende de licenciamento.

“Essas medidas são fundamentais para garantir a sustentabilidade da operação e reduzir os impactos ambientais. Mas exigem investimentos, contrapartidas e responsabilidade coletiva, envolvendo a empresa, autoridades e a sociedade”, destacou Viana.

Diversificação econômica e responsabilidade coletiva

Apesar do cenário considerado positivo, o presidente do Metabase ressalta que a ampliação do prazo não deve resultar em acomodação, uma vez que mais de 80% da economia de Itabira permanece dependente da mineração.

“Ganha-se um tempo, talvez até mais tempo por meio de estudos geológicos, mas que acompanha diversas responsabilidades. É preciso que a Vale, autoridades, trabalhadores e toda a população estejam comprometidos com o futuro da cidade”, afirmou.

Entre as propostas defendidas está a criação de um Fundo Municipal Soberano, já sugerido pelo prefeito Marco Antônio Lage, mas ainda não implementado.

“Antes tarde do que tarde demais. Esse fundo já deveria ser realidade desde os primeiros relatórios Form-20, ou mesmo com a instituição da Cfem após a Constituição de 1998. É fundamental para garantir recursos da Cfem, fomentar novos empreendimentos e assegurar serviços básicos quando a exaustão chegar.”

Outra iniciativa destacada é a transposição de água do Rio Tanque, com capacidade de 600 litros por segundo, superior ao consumo atual do município, estimado em 400 litros por segundo.

“Esse excedente abre perspectivas para atrair novas indústrias que demandem insumo em escala industrial. É uma oportunidade para diversificar a base econômica de Itabira”, disse.

Uso futuro e legado das áreas mineradas

O aproveitamento de áreas já desativadas também é apontado como alternativa para o desenvolvimento local, incluindo a destinação de estruturas descaracterizadas para usos culturais, turísticos e patrimoniais.

“É hora de discutir o melhor plano futuro, ainda que mais distante, para o fechamento das minas. Mas para áreas já desativadas, podemos pensar em novos usos desde já.”

Nesse contexto, a ampliação do horizonte de exaustão para 2053 é avaliada como um avanço relevante, associado à necessidade de planejamento de longo prazo.

“O tempo extra precisa ser convertido em oportunidades de diversificação econômica, sustentabilidade e legado duradouro”, ele defende, acentuando que “o futuro começa agora”.

Leia mais

Destaques